
Preciso de férias das férias: um manifesto de slow travel
Se já disseste "preciso de férias das férias", o problema não foram as férias. Foi a forma como viajaste.
"Preciso de férias das férias." Se já disseste isto (e todos já dissemos), o problema não foram as férias. Foi a forma como viajaste.
Voltamos de férias cansados. E achamos isso normal.
Vivemos com os dias cronometrados. Trabalho, recados, o jantar de que saímos cedo porque amanhã é dia. E o bocado que sobra para nós? Também tem hora marcada: o ginásio das sete, o cabeleireiro de sábado. Nem para descansar existimos sem relógio.
Contamos os dias até sexta. Ansiamos os próximos 11 dias de férias como quem espera respirar. E quando finalmente chegam, a sede é tanta que enchemos a barriga de um grande nada.


Vamos a todo o lado e não vemos nada
Corremos de check-point em check-point, a picar o ponto, só para poder dizer que fomos. E a pergunta certa não é o que aprendeste: isso está no Google. É o que sentiste. O que ficou.
Provavelmente vieste cansada. Alarme todos os dias para mais um tour de 20 pessoas. E não trouxeste nada que te tenha mudado por dentro.




Não é um luxo. É um ritmo.
Durante muito tempo acreditei na divisão clássica: turistas de um lado, viajantes do outro. Hoje acho que não existem tipos de pessoas a viajar. Existem ritmos. E eu própria já viajei no ritmo errado, com a galeria cheia e a memória vazia.
Viajar devagar é investir tempo: em ti, nos sítios, em deixar que aquilo que vives te atravesse.
E não: slow travel não é um luxo para quem tem tempo e dinheiro a mais. Essa é a desculpa mais fácil. Não é preciso berço de ouro; é preciso uma decisão. Aceitar que o mundo é grande de mais para o veres todo, e escolher senti-lo em vez de o coleccionar.
Muitas vezes até fica mais barato: ficar mais tempo num sítio custa menos do que saltar por dez. Não precisas de saltar de ilha em ilha na Indonésia de dois em dois dias. Não precisas sequer de sair do país. Precisas de estar presente onde estás.



O plano perfeito deixa espaço para não ter plano
O planeamento perfeito é o que deixa espaço para não ter plano. E acredita: é aí que a magia acontece. Quando vais de Google Maps na mão, do ponto A ao ponto B, e de repente ficas sem sinal. E dás por ti, finalmente, a olhar para o que tens à frente.
As melhores coisas que descobri em todas as minhas viagens foram sempre no acaso. Quando larguei o GPS. Quando me perdi de propósito. Mesmo que a rota fosse maior, mesmo que tivesse de voltar a ele para chegar a horas. Foi sempre aí, no que não estava planeado, que vivi o que hoje me lembro.

Antes da tua próxima viagem, uma pergunta
Por isso, antes da tua próxima viagem, pergunta-te só uma coisa: queres colecionar o mundo, ou senti-lo?

É assim que eu desenho viagens. Sem correrias, sem check-points, com espaço para o acaso. Se queres que a próxima seja para viver e não para sobreviver, é isso que eu faço.
joo









