Sobre

Nunca fui a pessoa que sempre soube o que queria. Fui a que aprendeu, uma a uma, as coisas que não queria: viver refém das regras dos outros, sentir-me menos por não caber nas caixas onde tanta gente aceita caber para ser aceite.
Fiz muita coisa antes disto. Três anos de Direito em nome do amor ao meu avô, que queria os netos todos doutores. Maquilhagem numa era pré-YouTube, balcões de shopping, televisão, turnos na cosmética farmacêutica. Trabalhava sempre com a camisola vestida, e quando deixava de haver verdade naquilo, adoecia. Literalmente. Aos 31 anos percebi que a vida estava a passar por mim. Ou melhor: eu é que ia a passar por ela, num comboio que não era meu.
Saí. Aos 33 comprei um bilhete só de ida para a Ásia e parti sozinha, com uma mochila de 16 quilos às costas. A minha vida toda ali, e achava pouco. Afinal era muito, e de sobra. Aprendi a largar o que pesava. Aprendi que a vida tem um ritmo que nos pede: uns dias mais rápidos, outros mais lentos. E que não é preciso ir à Ásia para o ouvir, é preciso deixar de o abafar. Voltei com a mochila cheia de outra coisa: experiências que não passam de moda nem perdem a magia.
Hoje faço da viagem profissão: desenho viagens à medida para quem quer sentir os sítios, não só vê-los.
E depois há Zanzibar, que conto no primeiro artigo deste diário. Precisamente eu, que já sabia, corri uma ilha inteira numa semana. Estive em hotéis com que sonhei anos e não tive tempo de estar lá. Houve um onde nem cheguei a entrar na piscina. Troquei pequenos-almoços incríveis por uma lunch box feita na véspera. A ficha caiu a meio da viagem, com a exaustão. Foi a lição que me faltava, e mudou a forma como trabalho: hoje digo aos meus clientes, com a frontalidade de quem falhou nisto, que há destinos que pedem calma. Que mais vale priorizar do que ver tudo e não sentir nada.
Este diário nasceu do que andava perdido em notas de telemóvel: histórias e memórias que não cabem num formato de consumo rápido. Os meus amigos dizem-me há anos "devias escrever um livro, essas coisas só te acontecem a ti". Talvez, talvez não. Para já, escrevo aqui. Fora das rotas do Instagram, sobre destinos que são muito mais do que as redes mostram.
Se ao ler-me ganhares coragem para a decisão que andas a adiar, uma viagem ou um bilhete só de ida, este diário já cumpriu.
E se quiseres que a tua próxima viagem seja desenhada com esta intenção, é isso que eu faço. Tu só tens de fazer a mala.
joo